quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Páginas em vida.


Hoje, lá estava eu, à porta da mesma sala de sempre, à espera de mais uma aula de psicologia. A vontade nula de mais matéria, de mais uma aula igual a tantas outras, pois em 12 anos de ensino poucas e raras são as aulas que não são iguais umas às outras. A matérias na minha cabeça são uma banalidade como um quadro, sempre o mesmo quadro onde se acrescentam um pouco mais de traços, mas jamais será diferente. Até que algo foi diferente, pensava eu não para melhor. Como sempre lá vinha a minha professora, mas com um propósito distinto. “Vamos assistir a uma palestra, como sois de ciências, foram seleccionados para assistir a uma palestra sobre o cancro”. E o meu pensamento dividiu-se “óptimo porque não tenho aula, mas uma palestra cientifica sobre cancro não é propriamente mais empolgante”. Mas lá ia eu, de pé atrás à espera de uma palestra daquelas secantes e cheias de sono. Até que me deparei com duas pessoas e um livro. Como apaixonada por livros que sou, fui captada imediatamente para o livro. “seria cientifico? um romance? ficção?”. Sinceramente não consegui perceber o título e como todos dirigi-me para o ponto mais alto e afastado do “palco” onde os protagonistas da palestra nos iam falar sobre o cancro.
Assim se fecharam todas as portas e a narrativa começou: era um sobrinho e um tio que vinham falar da história da “Tia Guida”. Quando dei por mim já estava eu completamente dentro daquela história verídica, daquela família e de tudo aquilo que invadia aquela sala. Tinham me enganado, eu não ia ouvir uma palestra sobre o cancro, mas sim sobre o amor, o verdadeiro! A pesada naturalidade com que o André (o sobrinho da tia Guida) nos contava a sua história, como se estivéssemos todos numa conversa de amigos, talvez à volta de uma fogueira, porque lá no fundo eu sentia o calor e o conforto. A morte e o amor numa só história, toda ela verdade como os sentimentos. Toda a minha atenção tivera sido captada para cada simples palavra dita pelo escritor que fora personagem outrora. De repente dou por mim a olhar para todos os cantos, chegara o derradeiro momento das perguntas, invadida “ninguém vai perguntar nada, é o habitual”, mas não... Com aquele testemunho muitos outros foram abertos ao público, haviam muitas “tias guidas” e muitos “andrés” para contar aquela história. Todos choravam por motivos diferentes, uns emocionados, outros sentiam e partilhavam da mesma dor, mas o que nunca tinha sentido é que todas as lágrimas são iguais independente do motivo. Não estavam ali pessoas emocionadas, mas sim corações, era uma simples conversa entre corações humanos, com sentimentos puros. Cada pessoa tirava uma lição: eu, por exemplo, que nunca vivi um caso idêntico ouvia falar de morte, de amor, de perdas fora de horas, entendia e moldava cada palavra à minha vida, à minha teoria de vida, ao meu presente.
Hoje aprendi que devemos amar o máximo, chorar no máximo, viver ao máximo como e até onde queremos, mas quando deixarmos de querer ou nos fizer mal devemos abandonar, ou melhor, deixar ir... Mas aproveitar enquanto estamos aqui uns para os outros, porque infelizmente a vida não é eterna para todos os que amamos e queremos mais perto, por vezes temos que conviver com a sua ausência física, mas amar? Amar vamos amar sempre:
 

“Amar é igual em qualquer planeta”.
Assim corrijo, não tive uma palestra sobre o cancro, mas sim sobre o amor verdadeiro. Um livro que tenciono ler um dia, mas que já levo na bagagem da minha vida. E se hoje aprendi algo “de jeito”? Aprendi, porque apesar de não parecer, por vezes precisamos de aprender mais sobre sentimentos do que sobre ciência.


Ariana Serôdio.

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